Entrevista com Durval Queiroz Neto
- Gabriel de Campos

- 1 de jul. de 2020
- 6 min de leitura
O convidado de hoje é mais do que especial. Durval Queiroz Neto, mais conhecido por Duzão, é quem me concedeu esse incrível entrevista!
Nascido em Cuiabá, Duzão hoje atua como guard do Miami Dolphins na NFL. É o primeiro brasileiro a entrar na NFL vindo da BFA.
Durval começou a escrever sua história no futebol americano no Tangará Taurus, em seguida foi defender o Cuiabá Arsenal e o Galo FA; atingiu seu objetivo como jogador de defender a seleção brasileira (na época ainda jogava como defensive tackle).
Duzão fez o curso de técnico agrícola para em seguida se formar em Engenharia Agronômica.
Com a ajuda de seu agente, Kenneth Joshen Jr, foi seguir o sonho de representar o Brasil na maior liga de futebol americano do mundo. Em um programa organizado pela NFL, Duzão disputou uma vaga de quatro contra mais seis outros jogadores, o programa se chama NFL Undiscovered. Impressionou a todos que estavam lá com a suas habilidades de fácil comparação com jogadores de alto nível do draft.
Em 2019 assinou por três anos com o Miami Dolphins e disputou a vaga de titular no time. Ficou no pratice esquad, porém esse ano está treinado e adaptado para proteger Tua Tagovailoa de qualquer pass rush.
Confira agora a entrevista exclusiva com Duzão!

Quando foi o seu primeiro contato com o futebol americano?
Meu primeiro contato com o futebol americano foi mais ou menos em 2012, 2013; quando eu morava em Tangará da Serra. Lá tinha um time pequeno chamado Tangará Taurus, bem amador, sem equipamentos... foi lá quando comecei a brincar.
Qual é a sua melhor lembrança de quando jogava no Brasil?
Quando estava no Brasil meu sonho, meu goal, era conseguir jogar na Seleção Brasileira; passar por training camp. Quando teve a convocação e eu fui chamado, aquele foi um momento muito especial para mim.
Por mais que eu tenha sido convocado, reconhecido para representar o meu país como o melhor da posição. Com tantos outros jogadores espalhados pelo país, jogadores tão bons quanto eu, foi bem especial jogar contra Argentina.
Quem é o seu melhor companheiro de equipe nos Dolphins?
Desde quando eu entrei fiz muitos amigos por lá. Eu era DL (defensive lineman) e tinha uns amigos também DLs. Foi complicado porque a maioria deles foram mandados embora.
Hoje sou guard e um dos meus melhores amigos é o right tackle, Jesse Davis. Ele é o cara que eu tenho mais afinidade, o meu maior companheiro de time.
Me conte uma história que te marcou no esporte
No primeiro jogo em um estádio de copa do mundo no Brasil era a comemoração de 10 anos do Cuiabá Arsenal, o time que jogava, e 10 anos do Corinthians Steamrollers. Nesse jogo eu bloqueei um punt, consegui recuperar a bola e fazer o touchdown.
Foi um jogo de recorde de público no país com 16000 pessoas, minha família estava lá. Foi bem emocionante! Para um jogador de linha defensiva conseguir pegar a bola, recuperar e fazer um touchdown é um momento difícil acontecer.
Como foi participar do NFL Undiscovered?
Foi uma coisa muito diferente ter participado do NFL Undiscovered, saber que seu trabalho foi reconhecido.
Assim como tudo na vida, quando você é reconhecido como representante de um país; imagine só: eles fizeram uma seletiva no mundo inteiro e escolheram você do Brasil, para trazer e te levar com os jogadores para aquela estrutura da IMG Academy foi muito especial. Todo o tratamento que nós tivemos, a preparação, o investimento que a NFL fez em nós para fazermos nosso teste foi muito incrível.
Qual foi o primeiro pensamento que veio em sua mente quando soube que ia para a NFL?
O meu primeiro pensamento foi de não acreditar que isso estava acontecendo, fiquei por umas duas semanas meio neutro, meio frio; parecia que eu não eu não conseguia acreditar, que nem tinha dado certo. Depois comecei a ficar ansioso, um pouco amedrontado. Eu estava indo um lugar desconhecido. Toda vez você vai para um lugar onde é desconhecido, lá era a estrutura e os coaches, e sendo um jogador brasileiro do nível de futebol americano que é o nosso que é o nosso. Sem passar por high school e college, porque aqui eles vão se preparando desde cedo para ter noção do que irão enfrentar na NFL, eu não tive nada disso. Naquele momento foi eu e Deus e deu tudo certo.
Como você vê o futebol americano no Brasil nos próximos 10 anos?
Eu penso que daqui a 10 anos o Brasil vai ser vai ser muito mais reconhecido no futebol americano a nível internacional também, não só nacional.
O Brasil é o terceiro maior mercado da NFL, eles têm que atrair público para assistir o nosso futebol americano nacional. Então vai melhorar, cada vez mais os times vão buscar investimento trazer coaches... para melhorar isso tudo e melhorar tecnicamente. Isso que é a diferença, os atletas que tem nível para jogar na NFL jogam no Brasil, só que tem que começar um trabalho muitos anos antes de entrar na liga. Não deve ser quando o jogador está mais ou menos cru, igual eu estava, e já entrar na NFL.
Tenho fé que vai dar certo; precisamos de um investimento do governo e um investimento privado para conseguirmos desenvolver o esporte no país.
Diga-me um jogador que você gostaria de jogar contra e outro que gostaria jogar junto.
Eu tenho vontade de jogar contra o Aaron Donald porque ele é o melhor. Tenho vontade de jogar contra ele para ver a velocidade dele; porque a gente só consegue melhorar quando tem um nível de competição alto, jogar contra o melhor com o tempo você vai igualando seu nível. Se você jogar com uma pessoa que é muito inferior ao seu nível,você não consegue aprimorar.
O jogador que eu queria jogar é uma pergunta difícil. Poderia ser o Tom Brady, mas eu já não tenho muito mais essa vontade. Fitzpatrick é um cara muito especial e agora tem o Tua.
Mas acho que não tem um jogador que eu tenho muita vontade de jogar ao meu lado, meus companheiros de time são muito gente boa.
Qual foi o momento mais difícil que você passou em sua carreira? Chegou a pensar em desistir?
O meu momento mais difícil com certeza foi ter vindo do Brasil, aí eu fiz meu teste e Entrei na NFL. Mas quando eu cheguei aqui e você sente o tanto que é preciso estar preparado fisicamente e mentalmente, as reuniões, os treinos, condicionamento físico; o teste de memória que toda hora eles te jogam muita pergunta, muita jogada para decorar. Aqui você tem que estar preparado e descansado para dar conta de toda essa intensidade.
Vindo do Brasil, de um esporte amador, para a maior liga esportiva do mundo caindo de paraquedas lá dentro; eu tendo que me adaptar a aquilo rapidamente, com certeza isso foi foi a maior dificuldade que eu tive até hoje.
É lógico que a gente pensa em desistir, mas o esporte é assim, todo dia você tem que ter um porque, algum motivo muito grande para você estar fazendo aquilo. Não é só pelo dinheiro, tem que amar o esporte, tem que lembrar da família, de todas as crianças do Brasil que sonham em chegar onde eu cheguei; o seu motivo de estar aqui deve ser muito grande. É difícil e não é para qualquer um.
Dê uma dica/conselho para quem sonha em jogar na NFL.
O primeiro conselho é que tudo acontece no tempo de Deus, só que você tem que preparar o seu terreno.
Se você quer jogar nos Estados Unidos, tem que saber inglês! Você não pode arrumar desculpas para não estudar. “Eu não tenho dinheiro para ir para um high school”, você tem que trabalhar e se esforçar. Tem que fazer um curso de inglês ou estudar por conta própria, tem aplicativo no celular que você pode aprender a falar inglês. Na primeira oportunidade que você tiver o inglês não pode ser um empecilho.
Você tem que se preparar fisicamente, logicamente tem o biotipo que a NFL e os times de college demandam. Mas se esforce!
Você tem que estar com a sua fé em dia, isso é algo que me ajudou muito. Trabalhe duro! Seja o melhor do seu time, depois o melhor do seu estado, um dos melhores seu país... aí você vai ter reconhecimento para alguém te dar uma chance.
Se você não se esforça nem no seu time; se você não é o melhor, o mais esforçado do seu time amador aí no Brasil, como você vai ser conhecido em outro lugar?
Por Gabriel de Campos




Comentários